6 de jan de 2009

'Turistas de células-tronco' viajam por tratamento

Matéria veiculada em: 30/12/2008




Quando Robert Ramirez foi diagnosticado com a doença de Parkinson em 2006, seu médico lhe deu os remédios, mas pouca esperança: "ele me disse que não havia muito a se fazer exceto esperar a 'passagem para o outro lado.'"Ramirez, mecânico peruano-americano do norte de Nova Jersey, acompanhou desamparado seus sintomas piorarem. Seu braço esquerdo ficou cada vez mais fraco. Os músculos da perna se enrijeceram. Seu tremor se intensificou. Foi quando sua esposa, Elvira, viu Jorge Tuma em um noticiário peruano.

O médico peruano, em Lima, afirmou que tratava Parkinson e outras doenças com injeções de células-tronco. Eles verificaram em seu site: por US$ 6 mil, conseguiriam um tratamento. Reservaram um vôo para Lima.

Ramirez faz parte de um número crescente de pacientes que buscam terapias com células-tronco fora dos Estados Unidos - especialistas estimam que sejam milhares. E Tuma é mais um entre dezenas de médicos não-americanos a oferecer esse tratamento. A tendência se tornou significante o bastante para que a Sociedade Internacional de Pesquisa em Células-Tronco (ISSCR) publicasse recentemente diretrizes para médicos e aspirantes a "turistas das células-tronco."Especialistas americanos temem que haja médicos tratando imprudentemente pacientes sem esperar por ensaios clínicos que garantam a segurança dos procedimentos."Há muitos médicos se aproveitando do senso comum a respeito do potencial de cura das células-tronco em países com regulação médica mais frouxa," disse Sean Morrison, diretor do Centro de Biologia de Células-Tronco da Universidade de Michigan e tesoureiro da ISSCR. "Mas os detalhes do tratamento com células-tronco são muito mais complicados."Entretanto, as terapias com células-tronco estão se tornando uma área lucrativa do turismo médico, apesar da ciência ainda precisar revelar seu potencial e das controvérsias ainda infestarem o campo.

Essas células, encontradas em embriões e em certos tecidos adultos, têm o potencial de se desenvolver em diferentes tipos de células. Mas as questões éticas quanto ao uso de embriões como fontes de células-tronco diminuíram o ritmo das pesquisas em países como EUA e Reino Unido. Pesquisadores nos EUA conduzem ensaios clínicos para tratamentos tanto com células adultas quanto embrionárias, mas o órgão americano responsável pela regulação médica, o FDA, ainda precisa licenciar qualquer tratamento.

As novas diretrizes da ISSCR requerem que todo tratamento seja avaliado por especialistas sem qualquer interesse especial no procedimento. O guia também defende um processo consentido, no qual os pacientes teriam informações completas sobre o tratamento e transparência nos relatórios de resultados dos ensaios clínicos.O manual para pacientes do ISSCR alerta sobre tratamentos experimentais com células-tronco - aqueles que não fazem parte de nenhum ensaio clínico oficial. Ele também alerta para sinais de tratamento duvidoso, como a alegação de que múltiplas doenças podem ser tratadas com o mesmo tipo de célula.

Essa é apenas uma das várias afirmações otimistas usadas por médicos de vários países, geralmente em seus sites. Timothy Caulfield, do Instituto de Direito da Saúde da Universidade de Alberta, pesquisou 19 sites oferecendo tratamentos com células-tronco e divulgou seus resultados esta semana. Dez sites descreveram o tratamento como "pronto para o acesso público," ao invés de experimental. Muitas pessoas descobrem as ofertas de tratamento com células-tronco através de "publicidade direta ao consumidor" na Internet, ele disse."E existe um descompasso entre o que está sendo oferecido e o que a literatura científica existente diz,"afirmou Caulfield. "Aqueles que oferecem os tratamentos possibilitam a escolha entre duas coisas: o entusiasmo genuíno acerca das pesquisas com células-tronco e a controvérsia social em torno delas."

As clínicas cobram em média US$ 21,5 mil pelo tratamento com células-tronco, observou a pesquisa, mas as últimas notícias indicam que clínicas na China podem cobrar até US$ 70 mil.

Pesquisadores descobriram que tratamentos com células-tronco não-comprovados também podem causar complicações para os pacientes. Em 2006, o neurologista Bruce Dobkin, da Universidade da Califórnia, Los Angeles, descobriu que alguns pacientes haviam contraído meningite após operações para lesões crônicas na medula espinhal. Complicações no sistema nervoso e infecções também foram registradas após a utilização de células-tronco no tratamento de doenças do sangue.

Caulfield disse que nem todos os médicos oferecendo terapias com células-tronco são charlatões, mas acredita que qualquer um vendendo um tratamento deveria publicar dados que sustentem suas alegações."Ainda há barreiras científicas reais para essas pesquisas - mesmo os principais pesquisadores de células-tronco da Universidade de Stanford e no Reino Unido encontram dificuldades nos ensaios clínicos," disse Caulfield.

Nas trincheiras Tuma, o cardiologista procurado por Ramirez, com mal de Parkinson, promete restaurar órgãos e tecidos enfermos usando células-tronco adultas coletadas do próprio corpo do paciente.Desde 2005, Tuma já tratou cerca de 600 pacientes em torno de um quarto vindo de fora do Peru - com doenças como Parkinson, diabetes tipo 2 e enfisema. Seu método: injetar o órgão afetado com células-tronco da medula óssea do próprio paciente."Sempre digo a meus pacientes que isso não é uma cura, mas acredito que seja uma nova alternativa tremenda para melhorar a qualidade de vida," disse Tuma.

Ele operou Ramirez em outubro de 2007, em um procedimento simples que durou 45 minutos. Tuma extraiu e preparou as células da medula óssea da espinha de Ramirez e as injetou em uma artéria no cérebro. A partir daí, disse Tuma, elas começaram a gerar novas células que inibiriam o avanço da doença.Em uma semana, Ramirez disse que começou a notar que suas pernas estavam menos rígidas. Depois, seu braço esquerdo voltou a ter certa força. Ele se sente melhor que antes da operação e seus sintomas são menos identificáveis."Posso dançar com minha esposa e viver uma vida quase normal" disse Ramirez. "Sou muito grato ao doutor Tuma."Como muitos médicos oferecendo esses tratamentos, os procedimentos de Tuma não foram sancionados pelo governo de seu país. Apesar de ter publicado resultados menores de suas terapias cardíacas em revistas científicas, incluindo o Journal of Cardiac Failure and Cardiovascular Revascularization Medicine, ele ainda não publicou artigos sobre a eficácia de seus outros tratamentos.

De acordo com Insoo Hyun, professor de bioética da Universidade de Case Western Reserve e presidente da Força-Tarefa para Diretrizes em Células-Tronco da ISSCR, cobrar pacientes por tratamentos não-comprovados é considerado antiético."Ou você realiza pesquisas ou oferece uma terapia reconhecida, mas alguns desses médicos parecem querer fazer tudo ao mesmo tempo," disse Hyun.

Sem tempo a perderTimothy Henry, cardiologista do Instituto do Coração de Minneapolis/Hospital Abbott Northwestern, está autorizado pelo FDA a conduzir ensaios clínicos aleatórios com células-tronco adultas para doenças cardíacas. Ele já tratou 150 pessoas e disse que os dados preliminares são promissores. Mas os Estados Unidos têm ficado para trás na área devido às preocupações éticas levantadas sobre a pesquisa com células-tronco embrionárias, admite."A pesquisa com células-tronco adultas tem sido um desafio com a falta de informação e confusão a respeito das células embrionárias," disse Henry. Porém, pacientes desesperados como Ramirez estão relutantes em esperar provas concretas e a aprovação do FDA.Roberto Brenes é outro médico que realiza implantes de células-tronco adultas. Ele atrai pacientes até uma clínica em San José, Costa Rica, por meio do site cellmedicine.com.

Ele e seus colegas já trataram entre 50 e 70 pacientes com esclerose múltipla usando células-tronco retiradas do tecido adiposo, cobrando entre US$ 15 mil e US$ 25 mil, com "índices de sucesso muito bons," segundo Brenes.Embora Brenes reconheça que nunca houve ensaios clínicos demonstrando a eficácia da terapia para esclerose múltipla, ele disse que muitos pacientes não querem esperar."A área vai progredir muito nos próximos 10 a 15 anos, mas vários pacientes precisam de ajuda terapêutica agora e querem passar pelo procedimento," disse Brenes.Mesmo se isso significar custosas visitas de acompanhamento: Tuma recomendou que Ramirez voltasse a cada seis meses para acompanhar o seu progresso. E disse que se os sintomas da doença de Parkinson retornassem, outro procedimento seria necessário."Sei que a terapia não é uma cura completa, mas não a acho perigosa e faria novamente," disse Ramirez.Morrison, da ISSCR, entretanto, permanece cético.

"Vários pacientes vão gastar US$ 6 mil para comprar esperança, mas ainda assim não é certo vender poções milagrosas."



Traduções: Amy Traduções

Fonte: 

http://gazetaweb.globo.com/v2/noticias/texto_completo.php?c=166765

Um comentário:

fabiana disse...

Olá,meu nome é Fabiana e tenho 29 anos e descobrí que estou com a doença depois de ter tido um surto.
Ainda não comecei o tratamento e gostaria de saber se aqui no Brasil ja é realizado esse procedimento com células tronco, e onde?
obrigada.

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